quarta-feira, 17 de junho de 2015

O Terremoto Que Destruiu L'Aquilla

A serviço da burocracia, a ciência pune
Direto de Abruzzo, Italia

Jarno Trulli é o único motivo de alegria recente para os italianos apaixonado pela Fórmula 1. É abruzzese, como o avô de Madonna, Gaetano Ciccone e como tantos outros que chegaram ao nosso país e, por não conhecerem a língua local, ao serem questionados sobre os nomes, recitavam a procedência. Temos um vizinho aqui da redação chamado Abruzzese. Como tantos outros que hoje não têm motivo algum para celebrar a Páscoa, a boa fase de Trulli ou um espetáculo da Madonna. A região de Abruzzo, no coração da Itália sofre o tormento de estar no epicentro de um terremoto absurdo.

Mas se terremotos não podem ser evitados, como pode um ser mais absurdo? Acontece que o pesquisador Gioacchino Giuliani vem gritando aos 4 ventos desde março que o cataclisma estava por acontecer e seu epicentro? Abruzzo, mais precisamente a região de L'Aquilla. O que fizeram os burocratas -e na Itália os há em número ainda maior deles do que imigrantes- o que foi que eles fizeram? Guido Bertolaso, chefe da Defesa Civil ameaçou o cientista de queixa crime por tentativa de desordem pública. É certo que Giuliani botou a boca num megafone avisando a todos que deviam se mandar dali, muito antes da terra tremer e soterrar tantos compatriotas, "abruzzeses" ou não. Como a jovem Annalisa, 28 anos, que saiu da França, onde vivia em segurança, para passar os feriados com a família. Nem ela, tampouco sua filhinha recém nascida tomaram conhecimento do estardalhaço do "maluco" que apregoava o fim do mundo. Felizmente ela conseguiu se jogar para baixo da cama, protegendo a filha debaixo do braço e ambas sobreviveram.

Sorte que não tiveram tantos outros jovens que se reuniam na Casa do Estudante de L'Aquila. A cidade tinha muitos templos católicos, sendo rota de peregrinação e turismo religioso. Hoje tem meia dúzia de igrejas a menos. Quem acessar o Google Earth e olhar a imagem do satélite vai ficar com a impressão que um Godzilla bêbado dedicou-se a pisotear igrejas e prédios públicos.

Prédios públicos que aliás, segundo o chefe da Comissão de Grande Risco -tem disso sim- chegam a 80 mil em áreas suscetíveis a terremotos. Existe uma falha geodésica entre os mares Tirreno e Adriático que faz com que as placas tectônicas se afastem cerca de um milímetro ao ano. Ora, o que é um milímetro na cabeça de um burocrata? Junte 200 desses, no meio de um país e veremos uma sucessão de cismas como o de 90 na Sicília, o de 97 na Umbria e o de 2002 em Puglia. E o louco é o cientista que alerta, baseado em emissões de gás radon que segundo as autoridades, incluindo o ilustre chefe da Defesa Civil, "não é um procedimento científico".

Santa Clara, que perdeu seu templo em L'Aquila, que clareie as idéias desses burocratas do pensamento, porque baseados nos patamares da ciência burra, ainda vão matar muita gente. Em compensação, dom Berlusconi já anunciou com sua tradicional eloquência que "o Estado é presente", liberando 30 Milhões de Euros para a "reconstrução", que segundo um outro pesquisador -ah este sim do agrado dos burocratas- vai levar "pelo menos 8 anos". Melhor manter a gaveta aberta, seu Silvio, que essa gente mama com tanta sede que nem o gás radon do pesquisador maluquinho será capaz de prever.

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Vida chacoalhada

Estava no Equador quando fui despertado por um terremoto, pela primeira vez. A cama, o chão, a casa toda chacoalhavam de uma forma difícil de se acreditar. Alertei a comadre, que nem abriu os olhos: "são passarinhos batendo na janela" definiu. Corri para fora do quarto onde avistei cada um no seu quadrado. Literalmente. O casal, dono da casa, abraçado sob o marco da porta do quarto que dá para o corredor. A mesma coisa no quarto das filhas e dos guris. As construções, em região de cisma, são projetadas para se movimentarem e não cair. Se isso acontecer, o lugar mais seguro é abaixo dos marcos das portas, sob as mesas e até camas. Aprendi isso muito antes, quando morava no Texas, bem no meio da região de furacões e tornados. A receita é quase a mesma, já que a casa cai, ou levanta vôo.

Em outra época, quando vivia em São Francisco, a falha de San Andres, se manifestou ao menos 3 vezes, numa delas atingindo 6 pontinhos na escala Richter. Tive sorte de não estar mais por lá quando aquele grande cismo destruiu tudo.

Já que na Itália tudo, ou é muito antigo, ou é construído sob autorização e determinação dos burocratas que assolam o país desde muito antes de Berlusconi, a casa cai, a igreja cai, a prefeitura cai. Só rezando pra São Emidio, santo padroeiro dos terremotos, ou melhor; de suas conseqüências. A burocracia italiana, no que tange a tremores de terra é tanta, que por aqui eles possuem uma escala própria para medir cismas: a Mercalli.

Nada disso resolveu. Fui arrancado do sono às 3h e meia da madrugada, hora local de Roma, a 95km do epicentro do tremor. Como o hotel em que parava estava lotado e só restou pra mim um quarto abaixo do nível da rua, virei pro lado o voltei a dormir. De nada adiantaria correr para baixo do marco da porta. Felizmente a casa não caiu. A minha, porque aqui no centro da Itália, a coisa tá feia e o bicho tá pegando. Como disse o cardiologista que passou a madrugada de plantão no hospital de L'Aquila, tentando salvar tantas vidas que não pode contar: "quando retornei ao lar, pela manhã, para descansar um pouco, notei que somente uma casa da rua havia sido destruída; a minha". Perdeu a mulher e o filho de 8 anos. Fatalidade estranha, ou injusta.

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A TERRA TREMEU

Caramba, eram quase duas da madrugada em Roma, depois de uma jornada de libações e intensas caminhadas para conhecer tudo o que poderia estar ao alcance de meus pés. Da saideira até o hotel, pouco mais de uma quadra. Depois, escada abaixo, já que apesar de ter pago pela hospedagem antes de sair da Capital Gaúcha, enfiaram-me num porão, mesmo nível da recepção. Cansado e embalado do jeito que estava, mal deu pra tirar a roupa, escovar dentes, ligar a TV na Rai Uno pra dormir acompanhado de uma voz italiana e desmaiar.

Nada interromperia meu justo sono cinquentenário. Nada? Às três e meia da madruga um barulho repetitivo e desagradável brotava do solo. Meu estado alfa tentava me convencer que era apenas uma grande composição cargueira que passava pelos trilhos do outro lado da rua do hotel. Como assim, se todos os caminhos levam a Roma? Aqui a estação é terminal. Stazione Termini. Os trens passam por todos os outros lugares; aqui é seu destino. São obrigados a parar. Não se tratava de um trem em alta velocidade. Experiências no Equador, Califórnia e México já haviam me ensinado bem do que se tratava: terremoto. Sentei na cama a tempo de ver o prédio em cima de mim chacoalhando como uma kombi velha em estrada vicinal. Só consegui pensar: "se essa joça desaba, não vão conseguir encontrar nem minha identidade debaixo de tantos andares de escombros; o vizinho do último andar vai morrer igualzinho, mas pelo menos vão entregar um corpo para a família velar". Até que parou. Ufa. Virei para o lado e dormi.

Quando passaram os eflúvios etílicos e os efeitos danosos do fuso-horário, arregalo os olhos em direção à telinha que permanecia ligada no principal canal de notícias dos italianos. A catástrofe estava deflagrada. Não fora um abalo qualquer. A terra tremeu de verdade, tragando para suas entranhas vidas e obras de arte ali do meu lado, a 90km, em L'Aquila, bem no coração da bota. Felizmente Roma e eu escapamos, mas pela vemência dos depoimentos colhidos ao vivo, do epicentro do cisma, a coisa foi séria. Muito séria.

A Itália, todos sabem, é o berço da burocracia. Existe autoridade instituída para tudo, inclusive para terremotos. Tem até vocabulário próprio para ser usado na catástrofe, como "terremotati", a expressão que identifica vítimas do abalo. Legal esse gênero, não? Em vez de simplesmente desabrigado, ou flagelado, quem foi atingido pelo infortúnio ganha uma especialização: assim como o náufrago é aquele que estava em nau que foi a pique, quem sofreu por conta de uma uma atividade císmica vira terremotado. E para cuidar dos procedimentos de rescaldo, abrigo, alimentação dos sobreviventes, segurança, realojamento etc, existe a Comissão Nacional de Áreas de Risco, que infelizmente não levou a sério os gritos de um pesquisador, considerado maluco e intempestivo, que previa a tragédia nos 4 meses que a antecederam e que 3 dias antes correu pela cidade com um megafone em punho aos berros de "salve-se quem puder". O presidente da tal comissão chegou a solicitar a prisão do distinto cientista maluco, em vez de considerar a hipótese de averiguar os argumentos do cismologista.

Corro até a estação para um panini -a colazione do hotel nem refugiado merece- e verifico a possibilidade de partir direto para L'Aquila. Negativo. A ferrovia está fechada, por precaução, para evitar curiosos e porque todos os trens com carro leito à disposição foram desviados para o local, a fim de servirem de alojamento aos desabrigados. A mesma situação foi imposta aos ônibus e, mesmo que alugasse um carro, a estrada estava interrompida. Acesso, só pela costa adriática. Como estava em meus planos passar por Bari, para visitar a Basílica Máxima de São Nicolau, nem pensei duas vezes.

Coisa boa viajar de trem. Aí que se vê como o Brasil jamais será um país competitivo. Cada vez que se passa por um tronco multi-modal, a quantidade de bens em carga e descarga e o números de serviços que brotam em volta, mostra nitidamente porque alguns lugares possuem mercado forte enquanto outros não passam de eternos embriões. Quando se chega em Bari, então, a porta sul do mar Adriático mostra uma gritante vocação para gigantesco entreposto que recebe e despacha encomendas do e para o Oriente Médio, ou mesmo aquelas que conseguem transporte pelo já esclerosado Canal de Suez. A cidade não é grande, mas o que se movimenta a partir deste tronco multi-modal, para toda Itália, Suíça gera uma economia milionária.

Bari é muito charmosa, como a maioria dos portos. Tem um centro histórico que qualquer um consegue fazer a pé, sem criar calos. A catedral de S. Sabino, que hospeda o museu Diocesano, bem como o Castelo Normano Svevo são exemplos da melhor arquitetura românica pugliese. Simples e despojada, mas com toda a pompa e circunstância dos grandes monumentos históricos. As ruas estreitas e vielas onde só passam "motorini" é um cenário típico do sul da Itália, com seus varais suspensos ligando uma janela à outra, com roupas a secar e velhas senhoras a falar em voz alta.

Apesar das 6 igrejas históricas, minha peregrinação buscava a Basílica Pontificia San Nicola, um santo que não pediu para assumir qualquer destaque na hierarquia Santa Amada, mas que por força de seu ritual incessante de orações, despojamento material -de família muito abastada, doou seus bens a quem deles necessitasse, inaugurando o hábito cristão de dar presentes- jejum quase constante, já que se alimentava apenas o suficiente para manter-se vivo, trajando sempre as vestes mais simples que pudesse. Originário de Mira, na Turquia, próximo à Rússia, seus despojos foram saqueados por soldados puglieses e trazidos à Bari, onde se ergueu sua igreja, post mortem.

Uma missa singela acontecia na capela subterrânea da basílica, quando lá cheguei. Tive a impressão de ser o único turista. Os demais presentes, por estarem bem vestidos, evidenciavam a origem italiana. Aliás, quando foi que nós brasileiros deixamos de usar roupa de missa? Onde já se viu ir à igreja de bermudas, chinelos e tomara-que-caia? Tá certo que San Nicolau era desapegado, mas isso não quer dizer que se deva ir à missa em trajes de banho ou futebol. Minha melhor reverência à humildade necessária à ocasião foi o quarto da pensão em que fiquei, pertencente a uma família de devotos, claro. Uma caminha, uma escrevaninha, um banheiro decente e só.

Mesmo assim não deixei de conhecer a noite local, onde pencas de estudantes se misturam aos milionários mercantes em dezenas de bares de todos os tipos, que vão da parte antiga da cidade em direção ao centro e ao porto. Eu estava muito cansado com toda essa função, viagem e peregrinação. As pernas doíam. Apesar disso arrumei vontade para provar o prato típico -orichiete, uma massa em forma de orelhinha- e sorver um potentíssimo e jovem vinho pugliese, que já na 2ª taça fez o serviço de liberar meus intestinos entupidos pelo excesso de panini, pizza, pasta, focaccia, enfim das muitas formas que os italianos usam para comer pão. Eu que só como uma fatiazinha no café da manhã, entupi.

Conheci gente que embarcou em um cruzeiro romântico que parte de Bari e segue pela costa adriática até Veneza. Existe outro roteiro que pode levar aos bálcãs, de onde vem a maior leva de imigrantes que hoje viram alvo das autoridades italianas. Mulheres lindas e homens com poucos escrúpulos. Gente que passou por guerras e sobreviveu ao maior genocídio do final de século.

Minha missão em Bari estava cumprida. Uma boa noite de repouso e rumo a Abruzzo, onde os acontecimentos não paravam de chacoalhar a península.


Nem só de chocolate vive a Páscoa
Direto de Pescara, Italia

Marco Parodi, médico responsável pelos feridos acolhidos no sistema montado na emergência de L'Aquila apresenta com a frieza do distanciamento comum aos homens de branco: "não temos mais esperança de encontrar sobreviventes; vamos concentrar nossos esforços na salvação dos feridos resgatados". Assim sendo os jornalistas que chegaram ao epicentro do terremoto que assolou a Itália nesta segunda-feira, melhor fazem se derem espaço aos bombeiros e pessoal da Defesa Civil, para que a vida recomece no canto oeste da província de Abruzzo.

Não faz sentido permanecer no local remetendo os sobreviventes ao pior momento de suas vidas repetidas vezes ao dia. Não é papel da imprensa explorar a miséria humana. Escritores de ficção fazem isso de forma muito mais inteligente e profunda. Tansformar L'Aquila numa sucursal do Big Brother, ficar remoendo os olhares perdidos, as crianças desesperadas por um pote de mingau ou o desespero dos pais que perderam os filhos; replicar a foto da sorridente Serena Scipione, 24 anos, ao lado da amiga Marta Valente, feita horas antes em um momento de diversão, para sublegendar que a primeira não mostrará mais o sorriso cativante enquanto a segunda terá de sobreviver só, decididamente não nos leva a lugar algum. Melhor olhar para a frente e seguir a sugestão de dona Lorena Bari, que aos 93 anos perdeu tudo menos a vida -está muito triste por não poder mais folhear seus livros- quando sintetiza tudo que se pode dizer numa hora dessas, em apenas duas palavras: "estou viva".

Os tremores continuam, o que está levando desabrigados ao desepero. Muita gente foi enviada para Pescara, a capital, onde me encontro neste momento. Albergues e pensões estão lotados. Em meu hotel estão 70 famílias de "refugiados". É daqui que vão começar de novo. É a partir desse outro horizonte que toda uma população precisa aprender a olhar para a frente.

Não são poucos os traumatizados que se negam a dormir dentro das instalações oferecidas, muitas vezes até por voluntários. Apesar do frio, preferem dormir dentro dos carros, em estacionamentos distantes do prédio mais próximo. A sequência de tremores não ajuda o moral e falar em trabalho psicológico num momento desses é poesia. Os terremotos chacoalham as construções daqui igualzinho às de lá. Ninguém consegue segurar essa gente aqui dentro quando começa a tremer. Como se não bastasse uma inversão términa sobre o Adriático fez com que a costa abruzzese ficasse encoberta por espessa neblina, impedindo que o sol esquenta a primavera de Pescara.

Do majestoso e impagável hotel Esplanada, em frente ao mar, ao albergue da ferroviária, todos estão hospedando os cerca de 6.500 desabrigados de L'Aquila. Se tivermos a sorte de passar uma noite sem terremotos, talvez essa gente consiga dormir uma noite razoável. Aqueles que conseguirem, podem despertar nesta quinta-feira de Páscoa, olhando para a frente, vendo a beleza do mar e, quem sabe, pensar que 3 dias depois do martírio, Jesus ressurgiu para dar a todos um novo caminho a seguir. Com esperança e fraternidade.