quarta-feira, 4 de novembro de 2015

No Way Out

    No momento em que os brasileiros nos assombramos com os U$15Milhões que o escroque que presidia a CBF, José Maria Marin, pagou para responder ao processo que corre contra si nos EUA, no conforto do seu lar, um apartamento na Trump Tower, em Nova Iorque, é mais um dia de sorteio da MegaSena acumulada. Nós brasileiros adoramos sonhar, pois não custa nada, acreditamos em milagre e ainda temos o hábito de colocar tudo nas mãos de Deus. Esquecemos que já ganhamos tudo de mão beijada do criador. Um país de dimensões continentais, com clima, fauna e flora generosas e um subsolo de riquezas inigualáveis, além do litoral e a floresta mais dadivosos do planeta. O que fizemos com isso?

    Pois o sorteio da loteria deve pagar o equivalente a 10Milhões de Dólares, quantia inferior à que o ladrão de medalhas desembolsou pelo direito de ficar em casa antes de ser condenado pela justiça americana. Cabe colocar na balança estes valores e tentar entender o que é o sonho de enriquecer, contra o que é ser rico de verdade? Afinal o tão sonhado prêmio acumulado equivale a 2/3 daquilo que um ladrãozinho que ficou na presidência da CBF pouco mais de 3 anos, conseguiu juntar entre desvios e propinas, sem falar o quanto custa um apartamento em andar alto no endereço mais caro de Manhattan, ou o quanto ele está gastando em advogados para sua defesa.

    Dia destes um gerente de estatal entregou ao Ministério Público Federal o equivalente a U$ 45Milhões, desviados no esquema de propinas que ficou famoso como Petrolão. Aí é que está o ponto mais importante da operação Lava-Jato: se um simples gerente da Petrobras entrega mais de 150Milhões de Reais pra negociar uma pena mais branda, quanto dinheiro não foi surrupiado da empresa pela diretoria? Se esse volume quase infinito de grana advém de propinas, quanto está ganhando quem paga a propina?

    Pela primeira vez nesta nação, a justiça olhou para o lado certo. A menor importância é daquele intermediário que, mesmo levando substancial quantia, não passa de peixe pequeno. Olhando para cima, condenando o corruptor, como fez com Marcelo Odebrecht e Sergio Cunha Mendes, herdeiros dirigentes das maiores empreiteiras da construção civil brasileira. É aí que podemos avaliar o verdadeiro patamar da riqueza em nosso país. É entre aqueles que fazem dos governantes e mandantes seus lacaios, regando as mãos sujas daqueles com as migalhas das fortunas amealhadas dos cofres públicos.

    O Zézinho das Medalhas não passa de um lacaio a serviço das mega-empresas que comandam o esporte mundial, tanto quanto o Molusco não passa de um títere nas mãos dos empreiteiros. Gente que age como se tivesse descoberto o Brasil, onde basta abater as árvores nativas e saquear o subsolo e voltar correndo com o butim arrecadado. Esqueceram estes de responder uma pequena questão: voltar pra onde caras-pálidas? Se nem na Suíça podem mais esconder o fruto do roubo, melhor se lembrarem de que estamos todos na mesma barca e nosso lar é aqui. Não tem pra onde correr!

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Sugando Sangue e Andando Pra Trás

    O gaúcho parece que tinha perdido a intimidade com a enchente. Intimidade? Sim, éramos íntimos das cheias que ocorriam anualmente, quase sempre em agosto. Tanto que em 1967, quando aconteceu a maior dessa última metade de século, os governos tomaram providências e obras importantes foram tocadas pra diminuir o impacto ambiental e social das inundações. O Brasil vivia sob uma ditadura e os militares no poder sempre foram pragmáticos: cumpra-se. E a região metropolitana de Porto Alegre sofreu sérias alterações em sua geografia, a partir de um projeto de contenção de cheias na bacia do Guaíba, um estuário composto pelas águas de 5 afluentes que se agigantam em períodos de chuvas; os rios Sinos, Gravataí, Caí, Taquari e Jacuí.

    Estas obras levantaram barreiras visando proteger a população de São Leopoldo, de onde vem o Sinos, de Gravataí e Cachoeirinha, de onde vem o Gravataí e, principalmente Porto Alegre. A barreira maior vem desde a cidade de Gravataí, até o Centro Histórico de Porto Alegre, através da Freeway, estrada que une a BR 290 -rota que segue até a fronteira da Argentina via Uruguaiana- à BR 101 e litoral norte gaúcho, bem como Santa Catarina. Quando chega na ligação com a BR 290 oeste, via ponte do Guaíba, esta barreira segue até o Centro pela construção da avenida Castelo Branco e, quando esta atinge o coração de Porto Alegre, por ser impossível erguer o mesmo tipo de barreira, já que de um lado existe um porto e do outro uma cidade, optou-se por construir um muro, cuja altura tivesse capacidade para impedir enchentes no mesmo nível da barreira rodoviária. Assim foi feito e o Muro da Mauá foi levantado e estendido até a Ponta do Gasômetro, onde a barreira rodoviária é retomada e continuada até a Zona Sul de Porto Alegre, via avenida Beira Rio.

    Qualquer pessoa que já tenha visitado a Capital Gaúcha nota isso com facilidade, embora os moradores locais tenham dificuldades em visualizar a complexidade do dique. Estes habitantes, conhecidos localmente por "caranguejos", vêm desde a década de 70 do século passado batendo na tecla da derrubada do Muro da Mauá. Segundo estes, o paredão impede a visão do Guaíba, omitindo o fato de que o muro fica em frente a um porto, com 5,5km de docas e gigantescos armazéns ao longo de toda extensão em que foi construída o tal muro. Ou seja: não tivesse o muro, tampouco veriam o espelho d'água que banha a Porto Alegre dos Casais, pois os armazéns impedem essa visão. Como caranguejo é um bicho que anda pra trás, dia destes após a aprovação do projeto de Revitalização do Cais Mauá, quando 2 destes armazéns foram derrubados, estes se movimentaram pra fazer o maior barulho possível contra a obra. Mas eles não diziam que queriam ver o Guaíba? Se não derrubar armazém, vai ver de que jeito?

    Durante as últimas semanas,  choveu no Rio Grande do Sul, como se Noé tivesse construído uma nova arca e, os afluentes do Guaíba subiram metros e mais metros acima de seus leitos normais. O rio Caí, por exemplo, passou por cima das residências de milhares de pessoas na região de São Sebastião do Caí e essa água toda, quando desce, vem desaguar no estuário. Os rios Taquari e Jacuí se juntam antes de chegarem a Porto Alegre, criando um fluxo tão caudaloso capaz de passar por cima de boa parte da cidade de Eldorado do Sul e, especialmente, das ilhas que dividem a passagem dos afluentes na cabeceira do Guaíba. Todos estes loteamentos em Eldorado, foram urbanizados e vendidos depois da criação do dique, mas o poder público jamais teve o cuidado em construir uma barreira capaz de impedir que a inundação no município vizinho.

    O Guaíba atingiu seu mais alto nível em 80 anos e as comportas do Muro foram fechadas. Porto Alegre seguiu sua vida normalmente, em meio à maior enchente de sua vida contemporânea. O sistema de diques funcionou em seu primeiro teste verdadeiro e, pra tristeza e desespero da caranguejada, o Muro da Mauá protegeu o Centro Histórico de Porto Alegre. Sequer o tráfego na avenida Mauá precisou ser interrompido.

    Bola ao centro, vida que segue, afinal estamos diante de um novo temporal, as chuvas voltaram e os caranguejos se esgueiram pra tentar saírem das tocas assim que alguma tragédia aconteça por aqui, afinal, além de andarem pra trás, esse povo tem cruza com vampiro e adoram explorar sangue que não seja o seu.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Temos Muito Que Aprender

      Dizem que existem duas línguas afeitas à filosofia; grego e alemão. Eu de grego não entendo nada e nem tenho a pretensão de estudar a língua, mas alemão eu estudei, no colégio e Instituto Goethe. A língua alemã tem uma característica muito especial que a torna perfeita para filosofar, que é o fato de compor palavras com ideias. Peguemos a expressão "auf", que basicamente quer dizer "em", mas que associada com verbos, adjetivos ou contextualizada numa oração específica, pode ser um verdadeiro elo em correntes de raciocínios. Se unirmos com "heben", que pode ser um simples "elevador", mas pode adquirir o sentido adverbial de "levantamento"(que em português tem até 12 significados), podemos criar um conceito quase obscuro, que é o da supressão, mantendo a essência daquilo que foi cancelado. Confuso? Pois creiam que "aufheben" baseia o mais ancestral conceito filosófico que vem desde os tempos de Platão, mas que encontrou em Hegel seu mais ardoroso defensor: a dialética.

    O filósofo alemão chega ao ponto de dizer que a dialética não é apenas um método, mas o conceito filosófico em si: "a dialética é responsável pelo movimento em que uma ideia sai de si própria para ser uma outra coisa e depois regressa à sua identidade, se tornando mais concreta". Ou seja: um conceito é suprimido e cancelado por outro, mas sem perder sua essência, retorna num terceiro momento sintetizando o que levou de origem com o que agregou no caminho. Este caminho é a discussão, o debate, a observação, a ponderação. Para Hegel, esse é um caminho para transformar a razão em algo concreto para nossas vidas. É isso que está faltando.

   Estamos vivendo um momento em nosso país em que existem 2 conceitos nítidos a se digladiar. Isso é absolutamente normal na história humana. O problema do Brasil e dos brasileiros é que, aqui são muito poucos, quase ninguém, que se dá ao trabalho de pensar no advir. Ou uma ideia vence e subjuga a outra e a todos os que não concordarem, ou isso será feito na marra. 

    Quem é que está pensando no futuro? Quem é que está levando em conta a essência do conceito a ser suprimido, para que num terceiro momento esta ressurja do éter, construindo uma síntese aproveitando o que é positivo daquilo que foi ultrapassado? É isso que está faltando. Se nessa guerra odiosa entre petralhas e coxinhas, chegarmos apenas a um quadro onde um subjugou o outro, anotem aí, essa disputa renascerá logo ali, com mais intensidade e violência, incendiando esta nação.

    Por isso reverencio a Academia de Estocolmo, ao entregar o Prêmio Nobel da Paz ao Quarteto Pelo Diálogo Nacional, que transformou a Primavera Árabe em uma transição à democracia na Tunísia, país onde surgiram os primeiros conflitos de toda essa barafunda que assola o mundo, a partir dos países árabes. Um exemplo a ser analisado e, porque não, a seguir.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Fantasminhas Nano-Navegantes

   Estava eu nesta semana muito preocupado com os metabólitos e os danos que eles provocam ao não serem eliminados pelo organismo, quando tive meus pensamentos assediados e abduzidos por neutrinos. Ora direi ouvir estrelas… como diria o poeta; o que você tem a ver com metabólitos e neutrinos. Ora direi eu… partículas subatômicas improváveis são de fundamental importância. Saiba que neste exato momento você está tendo seu corpo trespassado por trilhões de neutrinos e nem imagina. É, pode acreditar.

    Assim como atravessam os nossos corpos, os neutrinos por quase não possuírem massa, atravessam qualquer coisa. Verdadeiros fantasminhas essas partículas elementares, que vagam pelo espaço numa velocidade próxima à da luz. Em função disso, esses “gasparzinhos” subatômicos conseguem atravessar até mesmo o núcleo do sol e todas outras estrelas. Surgem em consequência de explosões de raios gama pelo universo e, por interagirem um quase nada com a matéria, guardam preciosa informação sobre tais eventos. Vem daí a atração dos cientistas em estudar estes nano-navegantes do cosmos, que atingem cada centímetro de nossa amada e vilipendiada Terra em grupos de 65 milhões, atravessando-a como se nem estivesse ali.

    Pois a Academia de Estocolmo acaba de conceder o Prêmio Nobel de Física a uma dupla de cientistas da Universidade de Queens, do Canadá e de Tóquio, Japão, justamente porque esses 2 conseguiram provar que os neutrinos têm massa. Eles conseguiram investimentos bilionários e mandaram construir, em minas enfiada 1km e 2km no fundo da Terra, aglomerados de detectores com 40m de altura. Estes equipamentos permitiram verificar que estas partículas elementares se transformam constantemente, passando de neutrinos de elétron, para neutrinos de múon e até mesmo em neutrinos de tau. Acreditaria em neutrinos de tau se transformando aí dentro do seu corpo?

    Aí você me pergunta: “qual a serventia disso”? Pois bem… lá pela década de 70 do século passado, cientistas entraram em acordo em torno de um Modelo Padrão para tentar avaliar de onde viemos e para onde vamos. Este modelo tem uma precisão matemática de até 10 casas digitais nos cálculos de probabilidades, o que é muito bom pra mim ou pra você, mas não pra esses cientistas. Não, esses cientistas se apegaram a um tese de Wolfgang Pauli que previu ser provável que a energia liberada em certas reações era menor do que o total previsto. Então, ou alguém estava subtraindo energia como se fossem comissões em estatal brasileira, ou alguma partícula neutra estava sendo liberada durante estas reações. Bingo!


    Na década de 1950, conseguiram detectar a existência desses neutrinos emitidos de um reator nuclear. Poucos anos depois, em 1968, enquanto Daniel Cohn-Bendit incendiava as ruas de Paris e Dilma Roussef assaltava bancos no Brasil, um experimento a 1.500m de profundidade, em uma mina, confirmou que os neutrinos não apenas pudessem ser detectados, como também forneciam uma capacidade analisável da ordem de 30 casas digitais. Ou seja: os neutrinos, esses fantasminhas que insistem em passar por dentro de mim, de você e da Priscila Fantim, provaram que o Modelo Padrão da física, a coisa mais precisa jamais obtida na história humana, podia ser “melhorado”, pra dizer o mínimo, em pelo menos 10 dígitos. E você aí preocupado com o terceiro dígito no preço do litro da gasolina.

sábado, 3 de outubro de 2015

Eleições Distritais com Voto Facultativo

    Ouço e leio há bastante tempo que o Brasil precisa urgente de eleições distritais, com voto facultativo. Só assim reduziríamos o custo para os candidatos e estes teriam mais afinidade com a comunidade que representam. Ao mesmo tempo que se poria fim ao fisiologismo do voto cabalado a quem vende o sufrágio por alguns tostões, algum favor, ou mesmo um pão com mortadela. Pois muito bem, chegou a hora: neste domingo, 4/10, teremos eleições em todo país, quando 99,89% dos municípios escolherão seus representantes para o Conselho Tutelar. Eleições livres, sem a obrigatoriedade do voto e de caráter eminentemente distrital, pois os candidatos estão registrados por regiões de até 100mil habitantes e a estas devem representar os que forem eleitos. E você nem sabia, não é mesmo? Ou se sabia não está nem aí.

    Talvez seja bom saber também que, para pertencer ao Conselho Tutelar, um candidato tem que passar por etapas de qualificação, como curso de capacitação, ter mais de 21 anos e idoneidade comprovada, além de passar pela seleção do voto. São 29.780 conselheiros em todo o Brasil, sendo que 2.600 só no RS e acreditem que, dos mais de 1 Milhão de eleitores Porto-Alegrenses, apenas 29 mil foram às urnas definir os conselheiros nas eleições de 4 anos atrás.

    É a isso que ficaremos restritos caso o voto seja facultativo em todos os níveis, como tanto clamam os brasileiros? Menos de 3% de comparecimento e envolvimento do eleitorado?

    Se você pretende gastar alguns minutos do seu domingo para exercer seu direito de votar, seguem as listas de candidatos e os locais de votação.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Alegria e Vergonha; Tudo na Mesma Foto

    Se eu tivesse 83 anos de idade e vazasse na rede uma foto minha pelado, com aquilo duro, ao lado de uma bela mulher -também despida- com metade da minha idade, tudo que eu não ia ficar era brabo. Assim como não ficou incomodado o ator Stenio Garcia, pois para quem tem uma vida dedicada à dramaturgia, tirar a roupa em público, não chega a ser algo incomum.  É claro, o mesmo não vale para Marilene Saade, mesmo sendo ela também atriz, o que poderia nos levar a pensar que assim como o marido, não seja uma preocupação. Só que sim: é preocupante e ela decidiu que vai levar isso adiante até encontrar e punir os culpados. Por quê?

    Porque é muito mais fácil assimilar esse tipo de percalço sendo homem. Stenio chegou a declarar que, por ele, nem prestaria queixa do vazamento das fotos. Claro, eu mesmo disse acima que não me acanharia caso o mesmo acontecesse comigo. É porque vivemos em uma sociedade que olha para aquela foto em contexto semelhante ao que escrevi no parágrafo inicial deste texto. Agora, ela... é mulher.

    Imagina ela chegando na escola para buscar filhos depois de toda essa exposição? Imagina essa pessoa entrando sozinha, à noite em um bar para esperar o marido, ou uma amiga? Imagina ela envolvida num acidente de trânsito, desses onde só acontece um arranhão no carro de um "machão"? Imaginou o tanto que ela vai ouvir e ter de passar? Se você é mulher, é claro que já imaginou, até porque infelizmente está acostumada a sofrer na carne este tipo de diminuição do seu ser diariamente.

    Se você é homem, do sexo masculino, não tem a menor ideia do constrangimento a que elas são submetidas a cada dia. Mesmo que você não seja um ignóbil opressor, lembre-se que vivemos em uma sociedade machista. Ah, mas estamos longe de outras sociedades que mandam extirpar o clitóris das crianças do sexo feminino, para que elas não tenham direito ao prazer sexual quando crescerem. Sim, estamos melhores que isso, mas não aprendemos ainda a elogiar virtudes sem escrachar mazelas. Mulheres não são minorias, portanto não carecem de quotas ou proteção especial, mas tampouco são tratadas com o devido respeito de maioria que são, que nos oferecem o ventre e a maternidade; nos alimentam e criam. São elas que nos transformam em seres humanos, para que depois não as tratemos como tal.

    Marilene Saade é uma bela mulher e eu fico feliz por ver sua nudez revelada. Ao mesmo tempo que me envergonho de ver revelada a natureza mesquinha de uma sociedade misógina, tudo na mesma foto.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Stress? Que Trem é Esse Sô?

    Tem dias que a gente já começa estressado. Não é do meu feitio, procuro ser calmo e tal, mas marquei para bem cedo da manhã um procedimento pra lá de doloroso em uma clínica. Eram 9h e eu já queria matar alguém, mas que culpa têm os outros pelo meu sofrimento? Assim sendo fui comprar os medicamentos receitados na farmácia do Menino Deus que me atende com mais atenção em Porto Alegre e aproveitei para tomar um café no Empório Mineiro, do outro lado da Getúlio Vargas.

    O café passando no coador à minha frente, um dedo de prosa com o mineiro, aquele cheirinho de pão de queijo no ar. Esquece do stress rapidinho. Aliás, conversávamos exatamente sobre isso. Eu vinha no carro ouvindo uma matéria sobre essa doença social que está provocando um suicídio a cada 45 segundos no planeta e 25 por dia no Brasil. Ele sentenciou na hora: "as novas gerações crescem sem criar calos e não estão preparados para enfrentar a vida; é muito stress e não aguentam". Bingo!

    Por isso sugiro aos amigos, encontrarem um cantinho com ar de Minas, ou se puderem, peguem um avião e vão passar uns dias por lá. O povo mineiro e tão, mas tão menos estressado que o gaúcho, que em pouco tempo a gente fica calminho, calminho. Um café coado no pano, um dedo de prosa, a beleza e graça das mineiras, um pão de queijo, ou mesmo o próprio queijo, os doces, uma cachacinha especial e o tempo começa a passar em outra velocidade. Essa vida atribulada dos dias que correm, fica mais agradável quando se diminui a velocidade.

    Nem precisa abdicar de ser gaúcho pra fazer isso. Apenas abrir a possibilidade de aprender com os mineiros como tirar melhor proveito do tempo. Afinal ele vai passar inexoravelmente e não vai voltar. Portanto é melhor ter uma relação menos estressada com esse trem e com a vida, como faz esse desestressado povo de Minas. 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Não Há Saída Fora da Democracia

    Sou da geração que passou o primeiro quarto de vida lutando pela democracia, pois os direitos políticos foram subtraídos por uma ditadura. Não tínhamos o direito de escolher nossos governantes, fosse o prefeito, o governador ou Presidente da República. Não existia liberdade de associação política e nos era dado apenas a alternativa de escolher entre ser a favor do governo, ou contra, pois até a denominação "partido" estava banida e o que nos era permitido chamava-se Arena, ou MDB. As lideranças foram banidas e estavam exiladas fora do país, o que favoreceu a formação de uma nova geração de agentes políticos, que estava fadada a ser manipulada pelas velhas raposas coniventes com o bi-partidarismo, onde quem saísse da linha era cassado. Estado de Direito era uma ficção. 

    Assim sendo passamos 25 anos lutando pela liberdades de escolher nossos governantes através do voto, de associação política em partidos autênticos, de repatriarmos nossos líderes para que, com eles, nossos novos agentes políticos construíssem uma ampla participação popular, restabelecendo a democracia e construindo um novo país, baseado num Estado de Direito. Deu ruim!

    A contaminação criada pelos 25 anos do bi-partidarismo gerou esse monstrengo que é nossa Constituição, 34 partidos diferentes que se digladiam pelas generosas fatias do bolo chamado Fundo Partidário e eleições "livres" contaminadas pelo fisiologismo dessa herança maldita da ditadura chamada "voto obrigatório" e que ainda por cima "evoluiu" para um sistema jaboticaba de voto eletrônico através de uma urna que não emite recibo, nem pode ser auditada. 

    Nossas casas legislativas, em especial o Congresso, se transformaram em palácios suntuosos, onde se encastelam políticos desinteressados em defender o eleitorado, mas que levam a vida a angariar fausto e luxo, mordomias e cortesias como se estivessem amealhando o butim de uma colônia recém descoberta. Foi pra isso que lutamos pela livre associação política?

    Nossos magistrados são presenteados com mais e melhores benesses a cada ano que passa, a ponto de transformarem o teto de vencimentos em piso salarial e agregarem auxílios paletó, educação, moradia, mordomias e condutas de semi-deuses. Foi pra isso que lutamos pelo estabelecimento de um Estado de Direito?

    O distanciamento dos agentes deste Brasil do 3º milênio faz com que não mereçam o crédito da população que os sustenta e que sofre em consequência de seus atos e hábitos. Tudo está perdido? Temos de chamar de volta os militares e lhes pedir desculpas por termos corrido com eles do comando da nação? E se encontrarmos quem faça uma análise pragmática do momento que o país vive, julgando as falhas sem ranço e com propostas de como alterar o rumo, retomando a sensatez e readquirindo o respeito perdido interna e externamente? 

    Talvez alguém que lembra ser a sociedade brasileira permissiva e que temos que mudar a política, mas temos que mudar, também, a sociedade, ao passo que deixa claro ser necessária uma reforma política verdadeira e que grande erro de Lula foi não ter feito esta reforma, quando ele tinha tudo para fazer e que Dilma não tomou decisões estruturantes, em seu primeiro governo, sem fazer uma única PPP, perdendo uma grande oportunidade de modernizar o Estado brasileiro. Afinal nosso país era a bola da vez, há 5 anos e se o governo tivesse pensado de forma estratégica, podíamos ter um novo país, uma realidade diferente. Se esta pessoa alertar que a crise é grave e que a presidenta e sua equipe pensam se tratar de uma crise meramente econômica, quando ela é uma crise institucional, política e ética, também e que, por isso mesmo defende a separação de Estado e governo, pois quando este governa para resolver tão somente os seus problemas, acaba contaminando o Estado. Se eu disser que isto foi dito por um político do PT, você acreditaria? 

    Pois é, foi assim que, durante duas horas o prefeito de Canoas, Jairo Jorge, garantiu textualmente que "ou o PT muda, ou acaba como utopia", aos jornalistas que compõe o Clube de Opinião de Porto Alegre, nesta quarta-feira, enquanto assinalava ao mesmo tempo que neste processo de aumento do ICMS proposto pelo governador Sartori, o PT deveria ser propositivo e não apenas ser contra por ser contra, agindo como como se fosse um genérico do PSOL. "Nós, que governamos o Estado por 8 anos, deveríamos ser propositivos, apresentar alternativas, e não, simplesmente, sermos contra o pacote". E retornando ao cenário nacional sugere que uma saída para a crise criada por Dilma seria "chamar as oposições e propor um governo de coalizão nacional, uma espécie de parlamentarismo de fato”.

    Hoje adentrado ao 3º quarto da vida, aprendi que existe gente séria e gente ruim em toda a parte. A quem diz que "político é tudo igual" eu lembro que nós, lá atrás, mandamos de volta pra caserna quem tinha banido os políticos das decisões na vida nacional e que, desde então estes assumiram sua função em nossa sociedade. Não há forma de alterar o quadro atual sem a participação da classe política. Ou aprendemos a depurar e oxigenar nossas casas legislativas, ou fica tudo como está, ou nos resta o retrocesso. Afirmo que pode existir gente séria até mesmo dentro da política e até mesmo no PT, bem como até na magistratura tem gente séria, vide Moro. Sigo discordando de todas as práticas implementadas em nosso país nos últimos 13 anos, que nos conduziram a essa caos, do qual não há solução mágica para sair. A solução para sair desse atoleiro é política e temos, portanto, que encontrar onde tem trigo, no meio de todo esse joio. 

    Temos novos partido saindo do forno por agora e ainda não sabemos se entram nessa festa só pelas fatias do bolo, ou se estão dispostos a fazer do trigo o pão. Só tenho certeza de uma coisa: não há saída fora da democracia e do Estado de Direito. Tratemos pois, de melhorar o que temos. Bola ao centro!

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Vocação Para o Atraso

    Vivo num lugar que adora ditadores e ditaduras. Daqui saíram as tropas que tomaram o poder central do Brasil em 1930 e lá permaneceram no comando por 15 anos. Na mais recente ditadura que governou o país, 3 dos 5 generais que assumiram o comando desta república, eram formados no Colégio Militar de Porto Alegre. Faz pouco tempo, na Capital Gaúcha a população manteve por 16 anos na prefeitura uma Nomenklatura que ditou regras rígidas, fazendo escola para a prática do governar em proveito próprio hoje vigente em Brasilia. Pra citar apenas uma das barbaridades praticadas, desviaram o trânsito de um dos cruzamentos de maior movimento na cidade durante quase um ano, sob o argumento de que os motoristas porto-alegrenses deveriam se acostumar a uma obra que ali seria feita. Passou o tempo, veio uma eleição e o dinheiro da obra foi desviado para o candidato da quadrilha, passaram uma vassoura no chão e recolocaram o trânsito onde estava antes e nenhuma obra foi feita no local.

   Gaúchos são reacionários amantes do atraso. Pra quem é de fora e não sabe, as ruas de Porto Alegre são frequentadas por carroças puxadas por cavalos. Não é uma nem duas; são 6mil delas, com direito a licenciamento e placa. Quem mais gosta são os motoqueiros, pois o cavalo da carroça larga aquela torta de bosta no leito da avenida, em seguida passa um carro enquanto aquilo ainda está mole e lá vem a moto, cujo condutor desavisadamente toma um banho cheiroso com a chuva do que foi levantado pelo pneu do veículo da frente. Imaginou receber o motoboy, em sua casa trazendo a encomenda do jantar, pedido nesta situação? Aqui acontece o tempo todo e as pessoas acham normal.

    Este sul de mundo tem muita gente que gosta de se jactar com o bordão "RS Melhor em Tudo" e o hino do Rio Grande diz "sirvam nossas façanhas de modelo à TODA Terra". Como marketing até que funciona e tem gente pelo Brasil afora que acredita sermos diferentes e até melhores em alguma coisa. Desconhecem estes que o IDH municipal de educação da Capital Gaúcha ocupa apenas a 331ª posição entre as cidades brasileiras e no ranking de longevidade estamos atrás de outros 500 municípios brasileiros. Na média entre os fatores pesquisados, Porto Alegre ocupa uma nada destacada 28ª posição no ranking da qualidade de vida, entre os municípios brasileiros.

    Pois bem, nesta capital do atraso existe uma minoria barulhenta que sempre clama para que tudo fique como está, ou volte a ser como dantes. Estes conseguiram forçar um plebiscito num passado recente, convencendo a população que deviam votar contra a construção de residências e uma marina pública, num local abandonado junto ao Guaíba conhecido como Pontal do Estaleiro Só. Ora imaginem se houvesse moradores no local e gente usando a marina, como poderiam conviver ali os mendigos e craqueiros que hoje fazem daquela área seu habitat?

    Essa mesma minoria que ama e vive do atraso agora quer impedir que o projeto Cais Mauá, que vem sendo discutido há "apenas" 25 anos, possibilite a construção de bares, restaurantes, play grounds, lojas de comércio e milhares de vagas para estacionamento no Centro Histórico da cidade, um lugar fétido e pútrido de onde jovens e turistas fogem há gerações. Querem eles que aquele cais podre e ultrapassado, que já não serve para atracação e transbordo de mercadorias, fique como está: isolado por um muro, apartado da cidade e sem qualquer função. Imagina abrir ali uma atração turística capaz de criar 28mil novas oportunidades de emprego, milhares de vagas de estacionamento em uma região convulsionada onde uma vaga custa até R$30. Imagina um turista ou jovem casal querer sentar pra comer ou beber algo assistindo o decantado por-do-sol do Guaíba. Ora, que vão a Buenos Aires fazer isso no Puerto Madero, porque aqui seguirá sendo a terra da carroça, onde se entra numa confeitaria pra comer negrinho e se vai à padaria pedir um cacetinho.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O Futuro Passou e Deixaram Ele Passar


    Trabalho com e na internet desde 1999. Tudo começou quando fui chamado para gerar o conteúdo jornalístico de um portal de negócios internacionais, a partir de minha cidade, Porto Alegre. Em pouco tempo entendi que o mar de informações e possibilidades gerados naquele novo universo, não se restringia a esse ou aquele interesse, mas a um mundo novo para o qual o mercado da comunicação não estava preparado. Em 2002 já editava e dirigia o primeiro portal jornalístico do sul do país e, naquele ano, prestei minha primeira consultoria em Redes Sociais. Compreendi desde logo que o compartilhamento das informações era a grande novidade desta nova mídia. Ao contrário do que se fazia até então, nos meios e agências de comunicação.

    Corri para tentar compartilhar este meu novo conhecimento, entre aqueles que faziam acontecer o processo de comunicação neste sul de mundo, mostrando que tudo o que sabíamos até o momento estava por ruir e de como precisávamos criar estruturas pra compreender e embarcar nessa nova nave, que iria deixar nossa velha arca num passado ancião. Sem tentar ser arauto do fim dos tempos, deixava claro que era se adaptar ou sucumbir. Quem não estivesse preparado para o que a internet podia trazer, seria afogado pela onda do tsunami.

    Ouvi de gargalhadas a insultos, especialmente nas agências de propaganda, cujos "gênios" pensavam que eu estava apenas tentando vender mídia barata, enquanto só interessava a eles eram os 30 segundos a preço de ouro nos programas mais populares da TV aberta. Tentei explicar que todas as mídias tradicionais perderiam a importância em função da internet e das Redes Sociais e que as formas antigas iriam virar reboque de sustentação em pouco tempo. Preguei no deserto..!

   
Nesta terça-feira, 15 de setembro, a história do "mass media" deu seu passo final nesta mudança, dentro do Brasil. Era madrugada adentro quando Ana Paula Padrão teclou, com exclusividade, o vencedor da edição 2015 do @MasterChefBR... no Twitter, para somente um minuto depois anunciar o nome de Izabel no microfone da TV. E estamos falando do programa de maior sucesso da rede Bandeirantes, que liderava o Ibope naquele momento. De quebra a Band arrecadou um caminhão de dinheiro de uma operadora de telefonia que bancou o "merchand" e conquistou 1,5Milhão de seguidores na "hashtag" oficial do programa através de uma ação onde alguns dos twiteiros com maior número de seguidores no país bombavam os acontecimentos do programa na Rede Social. #MasterChefBR virou o fenômeno de mídia mais importante em todo o planeta durante mais de uma hora, na madrugada que passou. 


    E no RS, os gênios da comunicação deixaram o futuro passar.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Criatividade em Nome da Sobrevivência

    Passo esta semana na Agafarma da Getúlio Vargas e a sempre gentil responsável pela loja descobre que não tem as medicações que buscava. Ofereceu para me entregar em casa, assim que eles chegassem, pois havia estoque na distribuidora. Perguntei se teria custo essa entrega, ela foi taxativa: "produtos não encontrados em balcão entregamos sem taxa". Gostei, como não tinha urgência, aguardei e agora há pouco ela avisou que estava mandando meu pedido. Desço para buscar com o motoboy, que já não era tão boy, nem bobo e conversamos sobre a inflação, pois ele sugeriu parcelar em 3 vezes no cartão o valor da compra. Daí pra falar nos preços dos alimentos do dia-a-dia foi um pulo. Ele comentou que, em função da profissão, anda por boa parte da cidade e quando vê uma barbada, pára e faz a compra, mesmo que pra deixar em estoque.

   Gostei e aproveitei pra dar uma dica: "por quê não se junta com alguns amigos motoboys, montam um app para smartphone e criam um serviço por assinatura, onde os assinantes ficam sempre sabendo onde tem essas barbadas. Vocês estarão fazendo o bem e ganhando uns pilas extras, nesse momento tão difícil". O cara sorriu e disse "grande ideia, vou fazer".

   Nos próximos anos, em que a economia deste país vai levar pra retomar o prumo, pilhas de ideias pra empreender, fazendo o bem coletivo e que forem informais, vão proliferar por toda a parte. É como os brasileiros poderão se defender da onda gigante em que se transformou a marolinha daquele falastrão que liquidou com as esperanças, credibilidade e estabilidade de um país que recebeu ajustado.

domingo, 30 de agosto de 2015

Agosto Seu Desgraçado


Um domingo clássico de fim de inverno na Capital Gaúcha. Daqueles de sentar ao sol e comer bergamota até rachar os beiços. Gaúchos no Harmonia, ou na Expointer, gente chimarreando pelos parques, tricolores no Humaitá e Colorados nos botecos desde às 11h conferindo a rodada para os 2 times que enchem de paixão os corações da gauderiada. Flores florindo, borboletas polinizando ao vento, quero-queros se querendo, aninhando e cantando longe do ninho. Enfim; um momento abençoado, de pausa e lazer com 27º e muito sol.

    Num domingo assim, agosto se despede deixando pra trás as enchentes e os riscos de ser um mês de cachorro louco. Em seu último fim de semana, só pra não deixar assim baratinho, traz uma notícia complicada e leva consigo um sorriso importante, uma alma generosa, alguém do meu bem querer e de tantos gaúchos. Daqui pra frente, não mais o sorriso de olhinhos puxados de Mary Mezzari, chegando sempre com uma piada nova e um bom motivo pra se dar risada. Não mais sua beligerância em favor de todos os que precisavam de uma voz em defesa. E que voz..! Essa o Rio Grande aprendeu a conhecer e a adorar como poucas. Não mais seu texto cheio de possibilidades e correção. Não mais suas conexões improváveis, fosse com a maior banda de rock do planeta, fosse com o maior galã de Hollywood, fosse com o Eterno Capitão, fosse com quem fosse.

    Quando entrei na faculdade de jornalismo, lá estava ela usando o diretório acadêmico como tribuna. Quando consegui meu primeiro emprego em rádio, lá estava ela comandando uma greve, já que o patrão considerava desnecessário honrar os salários da equipe. Em outras emissoras e redações onde trabalhamos juntos, aquela entidade do jornalismo do Rio Grande sempre flanou com seu bom humor e defesa intransigente das condições de trabalho. Mas nada que resistisse a uma Coca-Cola.

    Jamais vi outra pessoa ficar tão feliz com um refri, quanto Mary. Lembro de um texto dela em que dizia ter saído da mamadeira direto para o canudo da Coca-Cola. Ela até bebia socialmente, mas o que a fazia realmente feliz era aquele estouro do abrir da lata e a borbulhante sensação do copo enchendo. Pra acompanhar uma boa comida. Chegamos a ter um programa de gastronomia juntos -eu ela e o Bola 7- onde fazíamos basicamente isso: comíamos, bebíamos e falávamos sobre isso. Era muito alegre, muito divertido e sobretudo, muito saboroso. Como muito saboroso foi o convívio com ela.

    Aprendi no decorrer da vida, que é inútil se abater pela tristeza com as perdas de pessoas queridas. O mais importante é o que ficou de lembranças agradáveis, das coisas boas vividas em conjunto das emoções compartilhadas. Mary Mezzari era pura emoção. Um coração que bateu assim, de forma tão intensa e extremada, acabou parando cedo demais. Deixando os gaúchos um tanto órfãos daquela voz que fez história na Ipanema FM e os amigos apartados daquele sorriso doce. Resta uma bergamota ao sol, com um gosto ligeiramente amargo que puxa para o chimas, nesta saideira de agosto, onde eu conseguira vir até agora sem rimar com desgosto.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Mais do Mesmo

    Desde o fim dos governos militares e a consequente democratização do regime brasileiro, assistimos a um número inacreditável de políticas dirigidas à desconstrução de imagens e ao assassinato de reputações. O caso mais clássico foi o "FORA FHC: FORA FMI". Só quem não viveu os anos 90 não lembra desta frase, pichada em muros de todo território nacional e palavra de ordem em 10 entre 10 manifestações públicas. Pois bem; quem patrocinou esta cultura terminou por chegar ao poder e, como primeira medida de governo, correu ao FMI para pagar o que se devia, justo eles que sempre pregaram a ruptura. Além de apregoarem o "FORA FHC", tentaram com todas suas forças o impeachment de Itamar Franco e até antes, conseguindo o de Collor. Agora dizem que impeachment é golpe. Uma demonstração nítida de que falam uma coisa e praticam outra. Quem quiser que acredite.

    Ontem o Brasil assistiu, durante o almoço, um ex-Presidente da República, justamente aquele que sofreu impeachment mesmo após ter renunciado, usar da mesma prática. O atual senador Fernando Collor, usar da mesma prática na tentativa de assassinar a reputação de seu algoz, o Procurador da República Rodrigo Janot, que foi sabatinado pelo Senado visando sua recondução a mais um período no comando da Procuradoria Geral da República. Na tentativa de instaurar a cizânia entre seus pares, o senador das Alagoas usou farta documentação para macular a imagem de Janot tentando fazer dele alguém com práticas semelhantes às que abreviaram o mandato presidencial. Em suma: acusou o Procurador daquilo que todos sabemos ser o ex-Presidente, um salafrário. Não colou e Janot foi reconduzido à PGR.

    Neste mesmo momento, as redes sociais são infestadas por "denúncias" que desabonam e tentam arrastar para o mesmo valhacouto enlameado onde Collor tentou colocar Janot, o atual Presidente do Congresso, deputado Eduardo Cunha. Pelo único e simples motivo que este colocou-se em rota de colisão com a quadrilha que ocupa o Palácio do Planalto e governa o país. Cunha é um político de reputação ilibada e caracter sem jaça? Tanto quanto Janot, é provável que não, assim como praticamente todo os que ocupam cargos políticos em nosso país. Agora, mesmo desconfiando da idoneidade do Procurador da República, alguém que não esteja entre os perseguidos por ele é capaz de lutar para que o Ministério Público abandone as investigações abertas? Uma delas é contra o Presidente da Câmara e tem claro viés persecutório, mas o Brasil precisa saber se Cunha é, ou não culpado pelo pretenso crime que surgiu do nada via uma "delação premiada", destas que até a Presidenta acusa ser tão eivada de crédito quanto uma confissão arrancada sob tortura. Assim sendo, não se assustem com o espetáculo pirotécnico que será protagonizado pelos soldadinhos virtuais da quadrilha que governa o país, na tentativa de enxovalhar a reputação de Eduardo Cunha pelo próximos dias. É mais do mesmo, que já estamos fartos de ver. É o bandido acusando de vilão a outrem, de fazer aquilo que ele próprio faz.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Tédio Num Momento Destes?

    Sinara Polycarpo Figueiredo era superintendente de investimentos do banco Santander. Num belo dia de julho de 2014, atendendo o compromisso de sua função com quem lhe paga salário, os investidores do banco, emitiu um relatório alertando a todos que a situação econômica estava grave e que pioraria com a reeleição de Dilma Rousseff. Passado pouco mais de um ano do feito, que culminou com a cabeça da economista servida em uma bandeja pelo banco, depois que o Sinhozinho de Garanhuns gritou aos 4 ventos: “Essa moça não entende porra nenhuma de Brasil e de governo Dilma. Manter uma mulher dessa num cargo de chefia, sinceramente… Pode mandar ela embora e dar o bônus dela para mim”, Dilma vem a público e diz: "Fico pensando o que é que podia ser que eu errei. Em ter demorado tanto para perceber que a situação podia ser mais grave do que imaginávamos. E, portanto, talvez, nós tivéssemos de ter começado a fazer uma inflexão antes".

    Isso quer dizer que Sinara tinha razão? Se a economista do banco tinha razão quando emitiu o relatório negativo a respeito da situação brasileira, como então foi demitida? Se a Presidenta reconhece que estava enganada, como então a analista de mercado não é reconduzida ao cargo, ou mesmo chamada para o cambaleante Ministério da Fazenda, já que este é comandado pela banca? 

    Dúvidas que assolam, mas neste país em que estamos vivendo, existe alguma coisa que não desassossega? "Ó têmpora ó mores"! No momento em que assistimos a um ex-Presidente falcatrua que foi sacado do poder pelo movimento das ruas, que pressionou o Congresso a votar seu "impeachment", vir a público ofender e acusar o Procurador Geral da República, daquela sua forma alucinada de quem virou noite sob o efeito de supositórios suspeitos. O Procurador respondeu e o Senador demonstrou raivinha e segue tudo como dantes, já que ambos pertencem ao mesmo governo e dali retiram suas receitas escusas.

    Ao menos, para quem almoçou hoje nos restaurantes espalhados pelas cidades brasileiras, apareceu uma atração diferente nos televisores instalados naqueles locais. Afinal, a vida do brasileiro precisa ter sempre uma novidade. Até a Dilma conseguiu encontrar uma novidade; a de que o país o qual governa está sim em crise, vejam só. Então por quê não enrolar a hora de comer a ambrosia pra assistir um ex-Presidente deposto alucinado destilar seu ódio em rede nacional? Decididamente, o brasileiro de tédio não morre.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Chega de Estado Absoluto

    Um poder central e absoluto, regido por quem se considera acima do bem, do mal ou da lei. Um Estado que cobra cada vez mais e maiores tributos a todos, especialmente aos emergentes e criando a estes todos o tipo de dificuldade para ampliar sua participação nos negócios, pois estes só podem estar sob a tutela do Estado, nas mãos de quem governa o poder central e seus apaniguados. O poder central acusa a burguesia de conspirar contra o bem do povo, argumentando que só o Estado pode proteger os pobres. Os rebeldes demonstram que é o poder absoluto que está impedindo o crescimento e a distribuição da riqueza, defendendo os grandes monopólios. Em tal caldo de cultura podemos acrescentar ainda seitas religiosas que defendem um lado, ou outro, com pastores e padres que usam os textos bíblicos para incitar a revolta e conquistar hegemonia. O estopim? Um líder rebelde no parlamento. 

    Captou a figura do caos? Exatamente; foi deste caldo de cultura que nasceu o capitalismo. A soma destes conflitos levou a Inglaterra a entrar em guerra civil, 4 séculos atrás, transformando-a em Reino Unido e na maior potência da civilização ocidental e do mundo, até as guerras mundiais do século 20. A falta de sequência na dinastia Tudor, anglicana desde que Henrique VIII separou-se da igreja católica para poder separar-se de 7 esposas, teve sua sequência em Elisabeth I, A Virgem, que por este detalhe não deixou herdeiros. Assim sendo, assumiu a coroa da Grã Bretanha o rei James I, da casa de Stuart, da Escócia. Um déspota que não aceitava ser contrariado e dizia ser ungido por Deus, que conseguiu liquidar com o crescimento político e econômico obtido durante o século anterior, dissolvendo o parlamento sempre que isso lhe parecia favorável e tentando impor uma monarquia absolutista baseada no direito divino. Seu sucessor, Carlos I não era melhor que isso e manteve o conceito de que reinava e governava por indicação divina e, portanto, não aceitava contestações. A ponto de dissolver o parlamento em 1628. Só 12 anos depois o parlamento foi restituído, mas a corrupção hegemônica, em especial entre os peruquentos da Casa dos Lords, fez com que os Cabeças Redondas, puritanos que dominavam a Casa dos Comuns sob a liderança de Oliver Cromwell se rebelassem definitivamente. Com o apoio da burguesia que não aceitava mais os monopólios controlando os negócios internacionais, nem a destruição das cercas das lavouras comunitárias onde se produzia o alimento, visando expandir a criação de ovelhas para aumentar a produção de lã e com a força dos calvinistas, que defendiam os camponeses contra o invasor anglicano. Ah e com um exército próprio que se bateu contra El Rei e os senhores feudais. Uma guerra civil, onde as tropas parlamentaristas, sob o comando de Cromwell, se bateram contra o absolutismo, subjugando o inimigo e retornando ao parlamento na tentativa de impor uma Carta Magna onde o parlamento passasse a ter o poder sobre o governo, reduzindo o poder real para a chefia do Estado. O rei comprou votos com o tesouro público, como de hábito e impediu a aprovação da mesma. Cromwell foi ter com seus soldados e contou a eles que não ganhariam o que lhes foi acertado e prometido, pois os derrotados estavam de volta ao poder. Foi o que bastou para suas tropas invadirem a Casa dos Lords, prenderem os proxenetas peruquentos da nação, dissolverem aquele antro e justiçarem seus membros, além de prenderem sua majestade, que acabou fugindo pra Escócia que, bem ao seu estilo, o vendeu de volta. Foi julgado, condenado e decapitado.

    Cromwell se auto-proclamou Lord Protetor da Grã Bretanha e partiu pra cima da Irlanda, pra dar uma sova nos católicos e anexando seus domínios num banho de sangue que levou a morte um quarto da população da ilha vizinha. O período entre a morte do rei e a morte do Lord Protetor foi o único em que a Inglaterra viveu sob uma República. Quando este se foi, os calvinistas tentaram nomear o filho, como herdeiro Protetor, mas não colou e a nação britânica concluiu que se era pra ter outra dinastia totalitária era mais fácil ficar com a monarquia que estavam acostumados. Chamaram os Stuart de volta, impuseram a estes a Carta Magna, separando o que é Estado daquilo que é governo e todos viveram felizes para sempre, assistindo a Revolução Industrial acontecer a passos largos sob a égide da modernidade.

    Viram como poder absoluto, não funciona nem na monarquia, nem na república? Sem falar que, no momento da divisão de tanto poder, pode muito bem surgir uma experiência capitalista, coisa da qual nosso país bem precisa experimentar. Chega desse mercantilismo com um poder central controlando tudo e favorecendo negócios apenas a seus apaniguados, restando a todos os demais o dever de pagarem a conta.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Brasilia; Um Território de Possibilidades

    A política pública e partidária é um trabalho de longo prazo visando o poder central. Uma estrada longa para ser percorrida durante toda uma vida. Somente através da observação, através do tempo, o animal político entende quais são os entes com que terá de fazer alianças e como as relações com os outros humanos, que movem esses entes, definirá sua sustentação rumo ao poder. Quem hoje, no Brasil tem uma bagagem construída ao longo de toda uma trajetória, com portas abertas e trânsito em quase todas as repartições do poder constituído? Pode-se contar nos dedos.

    Em primeiro lugar, de forma inquestionável, José Sarney. Este, não só tem as portas abertas, como tem as chaves que as abrem e fecham. Não é a toa que Lula só se elegeu Presidente da República, após de 4 tentativas, quando se aliou ao imortal do Maranhão. Vemos aí, o segundo melhor ator político, que compreendeu os percursos por onde o labirinto do poder conduz a seu destino. O ex-sindicalista aproveitou como mestre o tempo livre que teve desde os tempos que ingressou para o sindicato dos metalúrgicos. Por isto chegou ao comando geral da nação e ainda é o agente político mais importante do agrupamento partidário que manda em Brasilia. Prova que, na semana passada, derrubou sozinho todas agendas do Planalto e chamou para si a total atenção das lideranças da República, em especial do PMDB de Sarney, ainda o partido mais influente do país. 

    Lula tinha como lugar-tenente, alguém que lhe dedicava uma fidelidade canina, segundo as próprias palavras de José Dirceu, mas numa jogada genial de Roberto Jefferson(outro matreiro que entende do jogo), foi ejetado do poder e do projeto de 20 anos no comando da nação e terminou na prisão. Ato continuo, Lula viu-se obrigado a nomear alguém que julgava ter o mesmo nível de fidelidade e pensou ter encontrado em Dilma este personagem. Ledo engano. Quando se faz de um poste o seu sucessor, pensa-se que vai seguir no comando, mas não funciona bem assim. Dilma tem personalidade e ideias próprias, tal como uma visão macro-econômica bem distinta. Com seus conceitos próprios arruinou o programa desenvolvimentista governamental, queimou os estoques super-avitários e liquidou o fluxo de caixa do governo. Como se não bastasse, rompeu a fidelidade segundo a qual deveria voltar pra casa, passados 4 anos, devolvendo a presidência ao mentor. Quando conseguiu a re-eleição, acreditou que tinha o mesmo tamanho de Lula e este foi seu segundo erro crasso, este imperdoável. Mal ela deu a entender que agiria de forma independente a partir disso e seu mundo caiu. Lula nem precisou puxar o tapete; a falta de talento político e administrativo da Presidenta conseguiram fazer isso praticamente sem ajuda de quem quer que seja. Some-se a isso uma oposição não partidária que tomou as ruas e redes sociais da nação e o isolamento chegou ao ápice.

    Então por quê Dilma ainda não caiu? Porque existe na Capital Federal, um outro animal político de rara estirpe, daqueles que trilhou longo caminho e aprendeu que as portas do percurso deveriam ficar sempre abertas. Para sorte da Presidenta, este outro personagem é seu vice, Michel Temer. Este, ao contrário de Dilma, em vez de ser aprendiz de Lula, é pupilo direto do grande e único guru incontestável do PMDB nacional e do Planalto... ele mesmo: José Sarney. Temer conseguiu reunir a avenida Paulista com uma mão e reorganizar a interlocução com o Congresso, com a outra mão. E o governo hoje está em suas mãos. Se Dilma renunciar, ou for impedida pela Congresso, o vice-Presidente já tem como governar. 

    Lembrando que o impeachment pode recair sobre a chapa Dilma-Temer, o que instalaria Eduardo Cunha no poder, por um período transitório, até que novas eleições fossem organizadas. Essas eleições seriam comandadas por Toffoli, no STE e sua maquininha Smartmatic venezuelana? E Lula, se não for preso pela Lava-Jato, seria batido por Aécio? Eduardo Cunha se licenciaria, entregando o poder transitório a Renan Calheiros, para poder concorrer a Presidente como candidato de um PMDB esfacelado?

    Possibilidades..! Geniais, conspiratórias, especulativas, mas possíveis possibilidades

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Gracinhas e Grosserias Por Um Prato de Lentilhas

    Não há, nem houve movimento popular neste país que se assemelhe ao que estamos presenciando. Um grupo de guerrilheiros que pretendiam implantar uma ditadura comunista no Brasil, aos moldes de Cuba, descobriu o caminho para o poder através da democracia. O caminho foi trilhado usando a figura de um sindicalista de elevada inteligência emocional e carisma, mas nenhum escrúpulo ou crença ideológica que não fosse apenas chegar ao poder e dele usufruir de todas as formas. O personagem criado em torno de uma aura fictícia de líder dos trabalhadores, sem jamais ter trabalhado. Uma ideia genial do pensador militar Golbery do Couto e Silva para impedir o ressurgimento do trabalhismo, que fatalmente aconteceria com a volta de Leonel Brizola após a anistia política. 

    O pretenso marionete denominado pelo operador da ordem política e social, Romeu Tuma, pela alcunha de Barba, cumpriu com seu desígnio original liquidando o trabalhismo e absorvendo sua base popular e cresceu. Cresceu aprendendo de que forma eram puxados os cordões e quem os puxava e a estes se associou, transmutando-se de criatura em marionetista. Assim chegou ao poder nos braços de um partido construído pela abdução das bases populares do trabalhismo; pela articulação de um braço sindical que aderiu e subjugou a herança do peleguismo; com um braço armado distribuído em torno de todas as regiões produtivas do país, corrompendo o conceito dos assentamentos de trabalhadores sem-terra; com o apoio logístico e da igreja católica através de suas comunidades eclesiais de base e, por fim, aliado ao que sobrou dos guerrilheiros comunistas que entraram em guerra civil contra o governo instituído pelas Forças Armadas em 1º de Abril de 1964.

    Entre estes últimos, 2 se destacaram; um desde seus tempos como agente cubano infiltrado e vivendo sob disfarce e outra, que ficou famosa entre terroristas por ter executado o roubo milionário ao cofre de um bicheiro no Rio de Janeiro. O primeiro foi preso 3 vezes já e sua credibilidade só não é inferior ao índice de popularidade da outra, que ocupa a presidência da república, com a menor aprovação da história deste país.

    Se milhões de brasileiros saíram às ruas neste e em vários outros domingos exigindo a saída da "presidenta", não há de ser as gracinhas e grosserias postadas em redes sociais pelos vendilhões que defendem bandidos como cúmplices. Baba-ovos do poder como aquele "rapper"que xingou um milhão de brasileiros e mais de 200 cidades deste país de membros da Klu Klux Klan no Criança Esperança. Quem quiser trocar sua dignidade por um prato de lentilhas que o faça, mas não tente diminuir a força deste grito coletivo sem igual na história brasileira. Essas gracinhas e grosserias não colam mais. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Não Há O Que Não Haja

    A capilaridade das TVs por assinatura cresceu de forma exponencial com o acesso facilitado pelas operadoras satelitais. Já não é mais necessário estar próximo a um cabo para assinar uma distribuidora de canais chaveados, pois os pratos que captam a emissão das ondas transmitidas podem ser instalados em praticamente qualquer lugar. Some-se a isso a existência de centenas de canais que transmitem ininterruptamente e a oferta passa a ser absurda. Vivemos um tempo onde tudo pode ser argumento para um programa de televisão. Tudo? Sim tudo mesmo.

    Hj acordei com um programa em que mostravam uma dona de casa que se nega a ir ao mercado e pega 100% dos alimentos no lixo. A produção do programa contribuiu com um "chef" e a tal recicladora promoveu uma festa onde ofereceu acepipes encontrados no lixo da vizinhança, nas lixeiras de restaurantes e no lixão da cidade. Em suma: não há o que não haja!

    Daí pra se começar a encarar a vida que chamamos de "real" no formato de um "reality show" é um pulo. Porque o festival de grosserias que estamos assistindo diariamente nos telejornais é comparável às baixarias que se assiste nos BBBs da vida. Parece ficção sair do Palácio do Planalto e dar de cara com conhecidos militantes contratados, devidamente fardados pelo braço sindical do PT e depois ouvir nos noticiários o Presidente da CUT dizer com todas as letras "se preciso os 'movimentos sociais' irão às ruas de armas na mão" para defender o governo eleito por eles e que pra eles governa. 

    Pena que neste domingo não tenha paredão pra decidirmos quem será eliminado na terça-feira e perca os direitos de seguir aparecendo na TV falando bobagens. Mas tem manifestação na rua, o que é quase a mesma coisa e a gente nem precisa pagar pelo telefonema. Então, se você quer mandar alguém pro paredão, para eliminação na sequência, já sabe o que fazer neste domingo.

    Um bom fim de semana a todos

de Brasilia, Marco Poli

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Ser Ou Não Ser Interesseiro?

    Tudo o que fazemos é movido a interesse. Quando vemos uma pessoa que nos atrai fisicamente, corremos atrás pelo interesse em ficar perto dela. Quando descobrimos uma profissão atraente, estudamos o que for necessário até nos qualificarmos para a exercer. Se desejamos uma residência específica, com aqueles detalhes que nos fazem sentir mais conforto, deixamos que o interesse nos mova até juntarmos os valores que nos permitam lá residir. Ao vermos imagens de um lugar que mexe com nosso imaginário, passamos um ano inteiro correndo atrás da poupança que nos habilite passar as férias lá. Isso é ser interesseiro?

    Não, claro que não. Querer estar com uma pessoa pelos hormônios ou fantasias que ela movimenta em nós, não é a mesma coisa que fazer isto pensando em grana, status ou poder. Claro, se os seus valores incluem essa parte, então você não sentirá impedimento ético em agir assim. Muitas vezes, até, pode casar a fome com a vontade de comer, como diz o jargão popular. Afinal, quem pensa longe pode ter o direito de incluir essa ambição dentro de uma conduta ética, sem fazer mal a quem quer que seja, fazendo o bem a si mesmo e provocando uma onda benigna em torno de suas realizações.  É o princípio de "os fins justificam os meios". Um conceito difícil de explicar fora da maldade. A política e as novelas de TV estão repletos de exemplos de como isso pode gerar o mal.

    Ninguém é obrigado a mentir para obter aquilo que sonha, até porque a mentira tem perna curta -e hj se diz que língua presa e 9 dedos- nem moldar a verdade para conquistar seus objetivos. Não é feio nem proibido ser ambicioso, assim como não é obrigatório ser do mal e agir com maldade para atingir essas metas. Pode-se facilmente encaixar esta atitude dentro do conceito moral judaico-cristão de "não farei aos outros aquilo que não quero que façam comigo" e lutar por conquistar aquilo que se almeja sem maltratar os outros. Peguemos  exemplo do fazendeiro rico que tem apenas uma filha mulher, ou filho artista, que não demonstra qualquer afinidade com a lida de produtor rural. Necessita de uma pessoa que auxilie a manter, ou ampliar, o patrimônio da família. Alguém vai ocupar este espaço, mas não precisa ser "do mal" e pode sim, exercer a função com alegria e causando o bem.

    O mesmo pode acontecer com um político, um advogado ou até mesmo um marqueteiro. Nenhum deles é obrigado a trilhar o caminho torto. Claro que não há monges nestas profissões, mas tampouco não existe certeza de ética ilibada entre clérigos das mais diversas religiões. Pura e simplesmente porque o ser humano é imperfeito, comete erros. O problema começa quando os erros de conduta passam a ser a rotina de uma conduta. De resto, pensamentos leves e desejos possíveis, podem sim serem conduzidos por interesses, sem que isso conduza o praticante ao inferno.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Não É Tão Difícil

    Ele é o líder socialista de maior expressão de sua geração. E o mais bem sucedido também, pois não apenas conquistou o governo do país, como lá ficou por um bom tempo. Estou falando do José Socrates, 1º Ministro de Portugal entre 2005 e 2011. Lembrei dele porque teve sua casa em Lisboa vendida por 675 mil Euros, por determinação da justiça portuguesa em ação de cobrança demandada pelo fisco, a quem Socrates deve 5mil Euros. Como o acusado está preso e a legislação não permite que outros paguem suas dívidas, a casa foi penhorada. Simples assim.

    Sem MI MI MI sua excelência foi preso por suspeitas dos crimes de fraude fiscal, "branqueamento de capitais", corrupção e cumpre pena. Ninguém chamou isso de "golpe" ou ameaçou retaliar com guerra civil. O líder socialista foi pro xilindró e agora tem seus bens penhorados para acertar suas dívidas com a sociedade. 

    Não é tão difícil assim. Muito menos motivo para convulsão social. Cometeu crime, foi julgado, condenado e cumpre a pena. É tão difícil assim entender isso?

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Prefiro O Abacaxi Ao Jumento

       Vc já viu um abacaxi? Não na fruteira, mas no cinema. Pois é, eu vi. Fazia anos que isso não me acontecia, mas me deixei levar pela vontade de cochilar depois de uma refeição tardia, com um nome famoso do cinema francês como Godard assinando o filme. Bah..! Isso facilitou minha sesta um monte. Obrigado meu ilustre cineasta francês, você me patrocinou um cochilo maravilhoso. Como a sala estava vazia, se ronquei ou se sorri, o importante é que não fiz sair ninguém dali -a única outra vítima de Adeus À Linguagem além de mim, estava na mesma fila que eu e já tinha levantado e abandonado o cinema ainda antes de eu cair no sono.

       Tenho essa paixão mal resolvida por filmes “off Hollywood”. Uma tendência a entrar em qualquer sala de cinema onde seja projetado um filme feito em um lugar diferente da fábrica de “blockbusters” do Tio Sam. Nada contra o capitalismo opressor yanqui, apenas contra as tosqueiras cometidas amiúde pelo produtores que bancam os filmes em Hollywood. Quantas vezes você já começou a assistir uma dessas películas motivado, tudo vinha bem, evoluía bem e, do nada, aquilo se transformar numa gosma de empurrar goela abaixo a pacientes em coma? Pois minha paciência para ser chamado de burro nas salas de cinema já foi pro espaço há muito tempo e, desde então busco assistir todo o filme feito fora da “meca” e, se for fora dos EUA, melhor ainda. Daí que seguido troco as tosqueiras pelos abacaxis.


Lembre-se sempre que, nestes momentos intensos e de estresse que estamos vivendo, duas horinhas no escuro, com a mente e o celular desligados, pode ser uma garantia de sanidade. Um abacaxi desses, como o do Godard, auxilia o vivente a desligar o disjuntor e sair de circuito, num momento quase uterino, pra depois renascer pronto pra voltar à guerra. Tenho um amigo que faz isso nos jogos do meu time e ele jura que chega a sonhar, mas ainda prefiro o abacaxi cinematográfico. Custa bem menos e nem se corre o risco de acordar assustado com os gritos e xingamentos da torcida contra um jumento investido no cargo de treinador, que coloca um centro-avante quando faltam apenas 10min de jogo, muda a partida, mas não dá mais tempo de mudar o resultado.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A Vida É Doce

        Entendo que tenha quem diga que é amarga, não contesto; talvez seja mesmo para quem assim diz. A minha, ao contrário é doce. Sempre foi, pelo simples fato de que desde minhas primeiras lembranças tive uma pessoa doce fazendo de tudo pra que viver fosse como saborear um pêssego no verão. Que sorte eu tive em ver a vida sempre assim, desde o início, não?
Com ela aprendi não só a me alimentar, mas também a fazer meu próprio alimento. Bah e como cozinhava bem e como gostava de me ver saboreando seus pratos e acepipes inacreditáveis. Sempre me levando em viagens incríveis onde descobríamos surpresas gastronômicas dos deuses, mesmo que isso fosse sob a lona de uma barraca, acampados ao pé de uma montanha ou próximo ao mar.
Com ela aprendi que amigos a gente encontra, afinal o mundo não é só aqui e que cada encontro de amigos pode virar logo numa festa. E como é bom fazer festa com gente amiga. Ela que sempre me lembrou que eu precisava aprender outras línguas, além da nativa, pois o mundo não é só aqui, embora repetisse sempre: “teu português é teu cartão de visitas; jamais faça uso incorreto dele”.
Pessoas doces são assim: oferecem e cobram com a mesma generosidade, firmeza e repetição, mostrando que a vida pode ser um alegre passeio pelo jardim divino em que nos foi oferecido viver. Ao mesmo tempo que nos alertam e preparam para resistir às intempéries, já que a rapadura é doce, mas não é mole não.  Assim nos ensinam a vencer a tristeza, pois esta não passa de um momento de repouso da alegria de viver.
Hoje é dia de lembrar disto, pois 4 de agosto sempre será pra mim um dia de festa, de casa cheia e de mesa farta. É o dia em que sempre celebrarei o aniversário de minha mãe, dra. Maria Alayde, a quem eu devo não apenas a vida, mas a descoberta de seu lado doce.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Réchitégui De Roupas Íntimas

 Hoje é um dos dias que mais me agrada nas redes sociais, o #LingerieDay quando meninas, a maioria de tenra idade, se exibe ao mundo daquele jeito que os namorados demoram muuuuito tempo pra conseguirem ver, quando conseguem. Um dia que só perde para o #DiaDoHomem quando meninas de todo o país prometem pagar boquetes pelo Brasil afora. A grande diferença entre as fotos que se vê nas páginas da "réchitégui" e aquelas conhecidas das revistas masculinas ou portais pouco louváveis de internet, é que a imensa maioria é de amadoras.
Aliás o número de amadoras no mercado da sacanagem, depois das redes virtuais, aumentou tanto que as GPs(forma politicamente correta atual para putas) estão se unindo a taxistas para protestar contra a concorrência que consideram desleal, depois que os motoristas decidiram se bater contra o Über.
Trata-se de uma das formas de expressão destes anos da 2ª década, do 1º século, do 3º milênio. Meninas que se exibem; ainda por cima com o aviso “APENAS EXIBICIONISTA”. Se vc acha isso difícil de entender, cautela;  vc pode estar ultrapassado. As meninas dos anos 2K têm os mesmos direitos que os meninos tinham no passado. Bebem tanto quanto eles, têm vida sexual ativa como eles e se exibem muuuito mais que eles, o que não faz delas putinhas; isso é reservado às GPs. É pecado? Provavelmente, mas numa sociedade que colocou a religião num plano inferior, quem se importa? É imoral? Num país onde se rouba Bilhões do dinheiro que resolveria os problemas de infra-estrutura, saúde, educação e segurança, fica difícil julgar o que é moral ou não, especialmente para cidadãos em formação como os jovens. É legal? Bem, eu acho legal, mas se pegarmos a forma da lei, num país onde fanáticos relativizam o trabalho de juízes que exigem o cumprimento da lei e colocam corruptos na cadeia, o que é legal ou deixa de ser é tão permeável quanto  membrana de celofane(pra quem ainda lembra das aulas de biologia).

É bonito? Ooh gente… bonito sou eu depois do 3º uísque(que vc bebe). É lindo ver meninas de todas as idades -sim tem maduras que pegam carona- cores e formatos democratizando suas intimidades vestindo roupas bem menos explícitas que as usadas no carnaval ou mesmo na praia. Portanto, fica mais fácil tentar compreender o apelo que vêm das redes sociais, do que perder o tempo esbravejando pela “moral e bons costumes”. Isso vai acontecer debaixo do seu nariz, queira você ou não. Não quer dizer que você deva estimular sua filinha com menos de 18 a sair se exibindo pela internet. Apenas tenha certeza que ela não é mais virgem, que faz coisas entre 4 paredes que provavelmente você nem sonhou em fazer com a mãe dela e que isso não faz dela uma devassa; apenas uma pessoa eroticamente mais resolvida que você.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Literatura E Os Pecados Da Carne

Enquanto advogados bem intencionados vão ao inferno, por mentirem, jornalistas bem intencionados foram ao Chalé da Praça 15 no cair da noite desta terça-feira pra cumprimentar e pegar um autógrafo do decano Flavio Dutra, lançando suas Crônicas Da Mesa Ao Lado. Poucos textos tem o fino humor do Flavio e poucos jornalistas agregam o respeito e amizade de tantas gentes das mais diferentes origens e procedências. Só de político 3 estrelas, o que tinha de bacana na fila do salão, dava um programa inteiro de CQC. Uma fila de respeito, de peso e de conteúdo, além de tamanho e duração. Escritor conhecido sempre tem bicha graúda em lançamento. Um alento praquele amigo meu que passa bem cedo nos lançamentos, pega o autógrafo, sai correndo para um motel, onde se refestela por horas a fio com alguma mariposa vivaz, chegando em casa perto da meia-noite, com cara emburrada e reclamando do tamanho e demora da fila de autógrafos.
Já eu, por viver só, não preciso de subterfúgios para  me entregar aos prazeres da carne e, após os cumprimentos e galhofas da celebração literária de ontem, tive de me atirar na mais pura e sórdida libação de fim de inverno: o mocotó do StarkBierZeit(a época de tomar cervejas fortes, em alemão). Uma promoção do Apolinário Bar, com o apoio gastrocultural do BurgoMestre Sady Homrich, para executar, degustar e se empanturrar com a receita e co-pilotagem de Fábio Franck e mesa de pães da chef Jaque. A cerveja Emigrator, da Abadessa fazia a harmonização que justificava o evento que, acreditem, ainda apresentou sobremesa depois de já estarmos todos mais estufados que urso ao hibernar.
A essas alturas, quando já a mulherada se retirou pra ir assistir Master Chef em casa e os baguais se puseram no pátio a queimar seus puros, aquele momento em que as verdades não aparentes aparecem, comecei a pensar que eu devia ficar alguns minutos de pé e depois me retirar pra tentar jiboiar em casa, mas nem terminei de mencionar minha covardia quando o inoxidável Sady contestou: “não sem antes provar do Aquavit artesanal que eu trouxe”. Isso é para os fortes, decididamente. Foi o tempo de exercitar o abdome estufado com muitas risadas causadas pelas confidencias dos comensais restantes no já "petit comité", que lá vem o Burgomestre com uma garrafa que parece uma pedra de gelo e passa a servir copetas com um líquido viscoso que dali escorria. 

Mocotó, cerveja, doce, charutos e álcool. Álcool temperado e com um sabor incrível, mas álcool. Era tudo o que eu precisava pra dar a noite por encerrada e assim foi. Sexo? Vocês perderam o juízo? Se eu desse uma mínima chacoalhada, entupido do jeito que estava, voltariam as enchentes sobre a região metropolitana de Porto Alegre em questão de segundos. Seria uma catástrofe da qual nem a Defesa Civil poderia livrar a população. Cama e 18 travesseiros, pois é vida que segue.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Valerosos Caramingüeites

Entrei em contato com um agente de viagens conhecido, pois tinha dúvidas sobre qual a melhor forma de dinheiro pra se usar em uma breve viagem à vizinha Argentina, se Reais, Pesos, Dolar, cartão de débito etc. Ele foi taxativo: Dolar. Era quarta, pra quinta-feira dia 15 e ele me avisa que a cotação da moeda do Tio Sam está em R$ 3,33. Brinquei que a meia-dúzia de caraminguás que podia comprar praquela aventura não justificavam que eu saísse correndo, que a cotação já estava alta e tal e ele comentou que se necessário deixaria o valor separado garantindo o preço contratado, mas que não deixasse para amanhã, pois ninguém sabe o que pode acontecer. Pelo sim, pelo não, comprei meus caramingüeites naquela tarde e garanti o passeio. Relaxei e nem quis mais saber de notícias, pois só viajaria ao fim do dia seguinte.
Assim nos fomos, eu e o caçula a bordo do novíssimo EMB 90 da Aerolineas, ao que o piá me pergunta por que as companhias aéreas brasileiras não usavam aquela aeronave, tão mais confortável e silenciosa que Boeings e Airbus. Nem tinha me dado conta. Azul, Aerolineas, Austral e Lan voam com aviões produzidos na Embraer, enquanto Gol e Tam se negam a usar o produto nacional. Tentei evitar a comparação desagradável com o fato de a Presidência da República do Brasil praticar o mesmo, já que o Air Force 51 é um Airbus e seu antecessor, o Sucatão, era um Boeing. Sem resposta a pergunta ficou.
Desembarcamos no Aeroparque ao começo da noite, fui imediatamente fazer um câmbio pra carregar algum “efectivo” no bolso e, na cabine descubro que era mais vantajoso usar Reais. Achei estranho mas fiz o mais lógico comprando Pesos com alguns Reais que tinha para a volta. Só precisava o suficiente para o taxi e a janta mesmo. O transporte até Belgrano ficou em 130 Pesos, contra os 110 acertados com o “remis”, que não esperou os 50min de atraso do voo; uma diferença em torno dos 5 Pilas. Para jantar, saboreamos em uma parrilla perto de casa uma carne que chamam de “Entraña” que entendi ser a parte sem gordura do vazio, do mesmo jeito que preparo em casa, só que estava melhor. Com “papas fritas”, “gaseosa y vino”, saiu por 220 Pesos. Viajados, alimentados e felizes por descobrir que naquela cidade maravilhosa nosso dinheiro valia bem mais do que por aqui.
Dia seguinte, primeira coisa, pegamos o metrô rumo ao centro da cidade, onde o câmbio é mais generoso, onde descobrimos que o Dolar azul(sim, os hermanos ainda transacionam com doletas verdes, só que pagam menos por estas) equivalia 14 locais. Fizeram as contas? Com 10 pagava o taxi e com 20 a janta, com direito a troco em ambas. Era domingo e dali seguimos para San Telmo que é dia de feira. O clima de céu aberto ajudava bastante e as bancas deixavam claro que preferiam Reais(4x1) e Dolares(14x1) nas transações. Naquele domingo houve ainda eleições nas capitais e em Buenos Aires os peronistas seguem alijados da administração pela 3ª vez consecutiva, lembrando que se trata do 2º posto mais importante da República do Prata.

Uma semana maravilhosa onde caminhamos até quase esfolar os pés, já que não vimos uma nuvem no céu, enquanto Porto Alegre sucumbia sob as águas de uma chuva constante e impiedosa. Um tempo excelente para arejar, comer medias-lunas, carnes e panchos maravilhosos  dar muita risada e esquecer um pouco do mau humor vigente na “terra brasilis”. Até porque ao desembarcarmos de volta descobrimos que o Dolar havia disparado e passado do valor que paguei, para R$ 3,47 e que, na segunda-feira bateu a casa dos 3,70. Em suma: parece que o Real acabou e já está frente à moeda azul dos americanos da mesma forma que encontramos os Pesos argentinos em relação ao dinheiro que nos custou tão caro estabilizar e voltar a ter poder de compra e poupança. Triste Brasil; matamos o futuro em apenas duas décadas.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Da Feira Direto Ao Coração

“Foco, foco, foco… vamos manter o foco”! Confesso que fiquei impressionado ao ouvir isso na feira. Não, eu não estava em algum evento empresarial ou de “coaching” em alguma federação patronal, mas em pleno canteiro central da av. Cascatinha, onde faço feira nos sábados.
Tem chovido muito, os vegetais estão feios e escassos com preços pela hora da morte -uns culpam São Pedro, outros o PT- e não foi diferente no começo do último fim de semana. Teve chuva pela manhã seguida de uma razoável estiada que me possibilitou até uma caminhada no parque depois das compras, além de abrir as janelas e arejar a casa, que já começava a apresentar sinais de bolor pelas paredes. 
Voltando ao foco -o meu no argumento do texto- havia bastante gente tentando gastar. Comi um pastel e bebi meu caldo-de-cana na feira ao fim da manhã, enquanto aguardava o Antonio Gornatti que foi até aquele lado da cidade para buscar agasalhos em donativo e distribuir aos desabrigados da enchente; um sujeito especial que gasta suas horas vagas auxiliando gente que muitas vezes nem vai conhecer. Em seguida me pus a passo entre as bancas e estava ruim de comprar alimentos frescos. Os tomates, desde que chegou este inverno ainda não me fizeram deixar de comprar os molhos e enlatados importados, que conseguem chegar aqui a preço mais convidativo que o produto trazido da horta. As bananas estão mais repulsivas que eu quando saio da cama pela manhã e a couve está chegando em folhas do tamanho de louro, enquanto que louro não há. Mesmo assim, lá estávamos, os consumidores, ávidos por fazermos compras, mas os vendedores, cansados por acordarem de madrugada, montarem suas barracas e passarem as 3 primeiras horas de seu trabalho embaixo de chuva e quase sem clientes, já haviam desligado os disjuntores. Sabe, perda total de saco e esperança? Pois é, já nem se davam conta de que centenas de clientes chegaram de repente, doidinhos pra gastarem o que tinha nas carteiras. 
Foi quando o “manager” de uma dessas barracas começou a gritar com os colegas: “foco, foco, vamos manter o foco…” Comecei a rir sozinho pensando na possibilidade de estarem vendendo foco na feira, posto que as óticas perderam a exclusividade no produto para os camelôs, mas percebi que era apenas um “coach feirante” tentando aproveitar a derradeira oportunidade de diminuir o prejuízo daquela manhã, quiçá da semana. Lembrei do que diz Dado Schneider em suas palestras de otimização profissional, parafraseando Delfim Netto: “pior que a realidade, só as perspectivas”.

Do fundo do coração vem o desejo de que, ao melhor estilo das empresas de ponta-de-lança do marketing e grandes negócios, o “coach manager” da tenda de horti-frutis tenha conseguido recuperar a estima e capacidade vendedora de seus colaboradores na feira, depois de duas semanas tentando vender produtos abaixo do padrão e acima do preço a escassos clientes. Ao mesmo tempo que o coração se enche de esperança ao lembrar que conheço gente capaz de abandonar sua zona de conforto pelo simples sentimento de cumprir um dever social com quem precisava mais naquele momento.